segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

FILIE-SE AO PARTIDO SINISTRO



     Se você está cansado de tanta opressão.
     Se você está cansado de tanta discriminação.
     Se você está cansado de tanta desigualdade.
     Se você está cansado de trabalhar.
     Se você está cansado de ser reprovado por ser maconheiro.
     Se você está cansado de ser contrariado pela realidade.
     Se você está cansado de ser obrigado a admitir que dois mais dois são quatro.
     Filie-se ao partido sinistro.               
     Você fuma maconha? Parabéns! É de pessoas como você que nós precisamos, pois mostra que você não está amarrado por essa moral criada pelos porcos capitalistas.
     Você gosta de quebrar as coisas? Ótimo! É de pessoas como você que nós precisamos, pois mostra que você não tem a mentalidade reacionária de querer as coisas inteiras.
     Você gosta das coisas podres? Muito bem! Isso mostra o quanto você detesta o conservadorismo. Também nós do partido sinistro não conservamos nada, gostamos de tudo podre.
      Uma onda conservadora nazi-fasci-reacio-nazista tem tomado conta do nosso país. Precisamos lutar contra essa onda, pois muitos desses já defendem que o casamento entre uma zebra e um orangotango não constitui uma modalidade familiar, se continuar assim voltaremos ao tempo em que não era permitido às antas serem presidentas.
     Não vamos deixar isso acontecer, não vamos voltar à idade das trevas onde não podíamos sequer defender a morte dos capitalistas. A elite branca quer nos tirar esse direito. Não podemos abrir mão das conquistas que obtivemos. A ultra-hiper-mega-extrema direita não deterá nossa marcha rumo a uma sociedade onde todos os seres sejam considerados cidadãos cosmopolitas de uma única e grande pátria. Falando nisso deixo no ar uma pergunta: Por que os fungos não podem votar? E termino com essa magnífica e indubitável resposta: devido à opressão histórica sofrida pelos fungos na mesma época em que as lulas não podiam ser presidentas. Foi a lula que abriu o espaço para que esse preconceito pudesse ser superado. Agora a anta que venceu democraticamente as eleições tem avançado para avançar rumo a um mundo ser fungofobia. Venha para o partido sinistro! Fungofóbicos, lulofóbicos e antofóbicos não passarão.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A SANTIDADE ENSINADA POR UMA CRIANÇA DE OITO MESES



         O Hugo tem oito meses. Tenho contemplado-o bastante ultimamente. Sua beleza infantil, sua pureza e inocência têm prendido a minha atenção e me convidado a muitas reflexões. Certamente há muito o que aprender nessa contemplação.
            No mar de malícia em que nos encontramos, as crianças brilham fulgurantemente, a luz de sua pureza contrasta com as trevas da imundície que nos cerca. De tanto observar esse meu filho mais novo, acabei por constatar que ele poderia ser um oásis para lembrar-me de coisas elevadas. Como que diante de um milagre indestrutível encontrei-me e ao contemplar tal maravilha passei a desconfiar de que Deus quer eloquentemente ensinar-me algo.
            Não seria exagero meu afirmar que o Hugo (meu filho de oito meses) se encontra em estado de santidade: não possui pecados pessoais e foi liberto do pecado original pelo Batismo. Sua alma inocente encontra-se na mais bela amizade com Deus.[1]
            Essa idade que ele tem agora é particularmente especial, pois antes disso a criança quase não esboça reações e a partir dessa idade a pureza vai se perdendo aos poucos para dar lugar às imperfeições, que na maior parte das vezes não são culposas, mas mesmo assim parece que começam a macular a candura que até então nos encantava. É claro que esse processo ocorre muito lentamente, de modo que podemos ver as manifestações dessa pureza em crianças bem maiores e até mesmo em adultos (nesse caso muito raramente). Em todo caso, Deus parece nos reservar bem pouco tempo para contemplar essa extraordinária sublimidade, pois as crianças crescem muito rápido e infelizmente o pecado e as imperfeições vão destruindo essa esplêndida inocência que o evangelho nos ensina a admirar e buscar.
            O que atrai na criança não é apenas a beleza, não é apenas a inocência e a pureza, mas algo de especial que obviamente não sou capaz de dizer. Arrisco dizer (e se estiver errado desconsiderem e corrijam) que um adulto que não tivesse nunca cometido pecados não seria tão encantador e puro quanto uma criança, embora certamente teria mais méritos. Isso ocorreria porque mesmo não pecando, esse adulto teria desenvolvido as imperfeições causadas pelo pecado original, algo que à criança ainda não teria ocorrido por falta de tempo. Observando por esse ângulo somos levados a considerar o encanto de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Sua Santíssima mãe que não possuem com o pecado nem o mais longínquo contato; podemos considerar também o encanto de São João Batista que foi santificado no ventre de sua mãe.
            A criança até determinado estágio não tem os meios para pecar, não tem vontade de pecar, não tem capacidade para pecar e não tem entendimento para pecar. A criança é completamente ignorante e sendo assim não pode pecar, pois não há pecado por ignorância, quando esta não é culposa.
            Cristo nos diz que para entrarmos no Reino dos Céus é preciso que nos tornemos como crianças. Permito-me dizer que ele disse isso em sentido alegórico, portanto devemos ser ignorantes como as crianças, mas não da mesma forma, pois elas são ignorantes devido à sua própria condição, coisa que não cabe aos adultos, que em geral têm a obrigação de aprender muitas coisas, sobretudo as referentes à salvação. Como então deve o adulto ser ignorante? Creio que seja não confiando na própria sabedoria, no próprio conhecimento, na própria inteligência, na própria memória, mas confiando primeiramente em Deus. Pedindo a inspiração do Espírito Santo, entregando a Deus todas as faculdades e rogando a Deus em humildade a cada passo que se dê.
            A criança encontra-se numa situação de extrema dependência. Ela não pode fazer quase nada sem o auxílio de alguém. Em geral o adulto não é dependente a esse ponto, pois exibe uma autonomia muito maior. Deve, no entanto, ser dependente como uma criança, para seguir o conselho de Jesus. Depender de Deus para tudo, recorrer a Deus em tudo, pedir a Deus auxílio em todas as necessidades e atribuir a Ele toda a glória.
            Os pequenos ao fugirem dos perigos vão em direção aos pais com uma confiança que é tocante. Esse é mais um dos aspectos que devemos imitar se quisermos obedecer ao que Jesus nos diz a respeito das crianças.
            Quando Nosso Senhor nos diz que só entraremos no Reino dos Céus se nos tornarmos como crianças, nos dá uma condição para a Salvação, mas também nos aponta como seremos no Paraíso, isto é, seremos puros como crianças, mesmo sendo adultos. Como tudo o que Deus criou quer nos dizer algo, ao contemplar meu filho creio ter aprendido vagamente como será um dos tantos milagres do Paraíso: ser um adulto pleno e ainda assim tão belo, encantador, puro e inocente quanto uma criança de oito meses.


[1] Se eu estiver dizendo algo que contrarie a Doutrina Católica desde já renuncio ao erro. Não apenas neste texto, mas em qualquer outro de minha autoria. E isso também se estende para qualquer coisa que eu disser ou pensar.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

É ASSIM PORQUE DEUS O QUIS



Em geral os argumentos usados pelos incrédulos são absurdos, mas um se sobressai por expressar uma grande cegueira e, sobretudo, orgulho. Trata-se de um argumento que se apresenta das mais variadas formas, mas que em essência consiste em dizer que uma coisa não pode ser de determinada maneira, pois se assim fosse seria irracional, cruel, desagradável e assim por diante. Baseando-se nesse argumento os ateus dizem que Deus não pode existir, pois caso Ele existisse não teria permitido o mal; outros dizem que não existe inferno, pois seria incompatível com a misericórdia de Deus; e há até mesmo os que dizem que os milagres não podem ocorrer, já que Deus não quebraria Suas próprias Leis. Esconde-se por trás dessa esdrúxula argumentação a tentativa de julgar aquilo que simplesmente não está ao alcance do homem.
            É simplesmente óbvio que o homem não pode saber por que Deus fez as coisas de um determinado jeito e não de outro. Não é possível saber por que Deus fez o cavalo com quatro patas e não com dez, Deus executa a Sua Vontade Onipotente e ninguém pode aconselhá-lo: “Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis seus juízos e impenetráveis seus caminhos! Quem, com efeito, conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem se tornou seu conselheiro? Ou quem primeiro lhe fez o dom para receber em troca? Porque tudo é dEle, por Ele e para Ele. A Ele a glória pelos séculos! Amém.” (Romanos 11, 33-36).
Se formos ser objetivos veremos que a maioria dos fenômenos que regem o universo nos são completamente incontroláveis, de modo que observamos impotentes as coisas acontecendo ao nosso redor e por maior progresso que a ciência tenha alcançado essa impotência continua, pois ela faz parte da essência das coisas e pertence a algo que não podemos alterar. Podemos sim realizar muitas coisas, mas não podemos alterar essencialmente a ordem que existe no universo, até porque somos parte dessa mesma ordem e não seus criadores. Não podemos fazer o olho ouvir ou os ouvidos verem. Não somos os criadores do nosso próprio ser e nossa liberdade nada tem a ver com onipotência, mas expressa também nossa impotência, pois a nossa liberdade não nos dá o poder de realizar irrestritamente a nossa vontade. Somos vasos nas mãos do supremo oleiro, sendo assim: “Ai daquele que contende com o seu Criador! o caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? ou a tua obra: Não tens mãos?” Isaías 45:9.
Quando um engenheiro constrói mal uma casa, quando um escultor não executa com a devida perfeição uma obra, enfim quando qualquer artífice não realiza bem o seu trabalho, podemos sempre avaliá-lo tendo como base um outro artífice da mesma categoria, sendo que o bom artífice serve como critério para que possamos julgar os demais. O mesmo não ocorre com o universo, pois só existe um único universo, de forma que não podemos buscar alhures elementos para uma comparação, logo quando o descrente tenta encontrar defeitos nas coisas do universo está agindo com descabida pretensão. “A quem, pois, fareis semelhante a Deus, ou com que o comparareis?” (Isaías 40:18). Onde encontrará ele outro universo para impugnar este? Será obrigado a apelar para a própria fantasia, para os próprios desejos e assim será obrigado a comparar o único e real universo ao universo maravilhoso de sua insensata pretensão. Aí está delineado o velho princípio gerador de todo o pecado: “Subirei acima das nuvens, tornar-me-ei semelhante ao Altíssimo”; “...Vossos olhos se abrirão e sereis como deuses...”, cuja única resposta adequada é aquela dada por São Miguel Arcanjo: “Quem como Deus?”.
O caminho correto é saber em primeiro lugar como as coisas são e a partir disso tirar novas conclusões, e não tentar descobrir como é a realidade partindo do que nos seria mais plausível. A lógica[1] e as nossas preferências, mesmo as mais nobres, não podem jamais descobrir como é a realidade, tampouco quando se trata da Realidade Divina. Por exemplo: ninguém jamais pode dizer que não acredita que uma árvore produz frutos azedos alegando que isso seria ilógico, ou alegando que isso seria desagradável, ou, mais absurdo ainda, que seria contra a misericórdia de Deus; essa questão é factual e para resolvê-la bastam os sentidos. O mesmo não ocorre com as coisas divinas.
            É impossível conhecer as coisas de Deus sem a Sua revelação, pois os objetos da Fé estão infinitamente acima da capacidade humana. Sendo assim nós devemos partir da Revelação e só depois usar a lógica para chegar a novas conclusões. Deus não nos convence com argumentos, mas com Sua autoridade e Poder; Deus não entra num diálogo com o homem para discutir Sua Doutrina, Ele a impõe. Obviamente Ele nos torna capaz de aceitar essa doutrina através de uma virtude chamada Fé, através dessa virtude nós conseguimos aderir firmemente a tudo o que ele nos revelou, pois Deus não pode Se enganar nem enganar-nos. Essa virtude não é um convencimento lógico-racional que nos é incutido por Deus, mas uma adesão que provém em parte da razão (que reconhece a pertinência de aderir à sublimidade daquilo que é revelado), e, sobretudo, provém da vontade. Através dos sacramentos, recebemos de Deus essa virtude teologal, a partir de então percorremos uma caminhada para aprender o conteúdo dessa Fé, esse conteúdo é a Doutrina propriamente dita.
A Doutrina nos dá então a conhecer os fatos a respeito da realidade divina. A partir deles podemos então formular novos raciocínios para tentar compreender o mundo à nossa volta, e não o contrário: tentar olhar o mundo à nossa volta para tentar compreender a realidade divina. É verdade que olhando ao nosso redor podemos conhecer algumas coisas sobre Deus, como sua existência, poder etc., mas como poderíamos, por exemplo, saber que Ele é Uno e Trino? Como poderíamos saber da Redenção? Dito isso, resulta claramente ser uma loucura querer inquirir as realidades divinas sem apoiar-se na Revelação.
            Para aqueles que duvidam que a Igreja Católica Apostólica Romana seja a única portadora dessa Revelação, basta estudar a sua história e ver com que dons extraordinários Deus cumulou a Sua Igreja, livrando-a das ímpias perseguições movidas pelos mais variados inimigos da Fé; como a adornou com exemplos da mais heróica santidade; como proveu os mártires com sobrenatural fortaleza; e finalmente contemplar os extraordinários milagres realizados por Deus para confirmar que Ele está presente e vivo na sua única Igreja. Obviamente esse simples estudo é apenas um auxílio, pois a conversão é obra do Espírito Santo, por isso o que se recomenda é oração, vida de virtudes e muita busca, pois Jesus disse que aquele que procura encontra.
            Nem sempre as coisas são como nós queremos, só Deus é Onipotente. Às vezes os incrédulos são tentados a perguntar com soberba o porquê de certas regras morais, o porquê do inferno, o porquê do sofrimento. Mas a realidade esta aí para nos lembrar que a morte virá, desprezando completamente a revolta que contra ela se possa nutrir; a doença virá independente de aceitação e Deus nos julgará impreterivelmente. Nem Lúcifer, que antes da queda era um dos anjos mais poderosos, pôde alterar os desígnios de Deus, sua revolta só serviu para sua condenação e dos que o seguiram (inclusive homens). Diante disso resta escolher entre amar a Deus por toda a eternidade ou a condenação. Nada mais justo, pois quem rejeita o Bem Supremo, não pode possuir nenhum bem, e merece todos os males.
            Chesterton com toda a elegância e brilhantismo que lhe é peculiar nos diz em seu livro “Ortodoxia” que a ordem que encontramos no universo demonstra não uma automática necessidade como querem os ateus deterministas, mas uma vontade. E que vontade poderia ser senão a vontade divina? O mundo moderno, iludido pelo progresso científico, não consegue ver o mistério que o universo contém, quer tudo enquadrar em leis necessárias e assim acredita que tudo está suficientemente explicado. Chesterton refuta essa mentalidade de modo poético e põe a descoberto sua fragilidade, pois a repetição dos fenômenos não prova uma necessidade automática, mas uma Vitalidade que ele compara com a vitalidade de uma criança que repete inúmeras vezes a mesma brincadeira, segundo ele talvez Deus seja suficientemente forte para exultar na monotonia. Além disso, a repetição de algo misterioso não nos deveria levar a uma familiarização, mas a um fascínio ainda maior. O fato de o sol nascer uma vez seria assombroso, mas o fato de o sol nascer inúmeras vezes é ainda mais assombroso. A ciência não pode explicar esses mistérios, tenta apenas enquadrá-los dentro de determinadas leis, mas não pode explicar o seu porquê. E por que não o pode? Simplesmente porque trata-se de uma vontade divina, e ao final de todas as séries de perguntas a resposta final será sempre: “porque Deus quis assim.”
Eis então um grande ensinamento e, mais que isso, um antídoto contra o orgulho e esse seu fruto amargo que é o ateísmo: não olhar o mundo com os olhos decrépitos do determinismo, mas com o olhar inocente e vivaz das crianças, com aquele olhar que é capaz de exultar nas maravilhosas repetições com que todos os dias somos contemplados.


[1] Não quero afirmar com isso que o conteúdo da fé contraria a razão, mas simplesmente que a transcende.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O QUE SIGNIFICA RENUNCIAR?

        

           A ordem que o evangelho nos dá de renunciarmos a nós mesmos é tão difícil de entender quanto de praticar. A fim de compreender e praticar melhor essa ordem, escrevi este texto, pois em geral a escrita nos obriga a uma sistematização. Que a graça de Deus venha em meu socorro.
            Dentre tantas partes do evangelho que nos dão essa ordem, gostaria de destacar duas. A primeira diz o seguinte: “Em seguida, convocando a multidão juntamente com seus discípulos, disse-lhes: ‘Se alguém me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me.’” (Marcos 8, 34). Essa renúncia não pode significar a aniquilação completa de nossa individualidade, pois não se trata de uma doutrina panteísta. A Sã Doutrina nos ensina que a união íntima do homem com Deus, na eternidade, não significa a absorção da individualidade humana pela divindade, senão a fruição e o repouso do homem no seu fim último que é Deus. Pois bem, se essa renúncia não pode ser a aniquilação da individualidade, o que pode ser então?
               Tentarei, com a graça de Deus, responder do melhor modo possível.
            Somos chamados a entregar, através de um ato de fé, a Deus toda a nossa vida: nossas faculdades, nossos bens, nosso tempo, nosso trabalho. Não é outra coisa o que ensina o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luis Maria Grignion de Montfort. Mas devemos lembrar que essa entrega não anula nossa liberdade, nem nossa consciência. O que significa então a renúncia pedida no evangelho? Segundo o que consegui entender, essa renúncia significa o seguinte: entregar tudo a Deus é estar disposto a viver nossas vidas submetendo-nos à sua lei em todas as questões, para isso deveremos contar com a graça de Deus que secundará nossos esforços em buscar essa lei e segui-la. Deus nos ajudará com sua graça, com as inspirações do Espírito Santo e com o fortalecimento da nossa própria inteligência.
            Vou agora ilustrar minha resposta com exemplos:
                1- A Igreja nos manda abster-se de carne na sexta feira. Mesmo que você goste muito de carne você se abstém, pois sabe que é isso o que Deus te manda. Nesse caso você renunciou ao seu desejo para seguir o que Deus ordena.
              2- A Igreja ensina que Jesus Cristo está presente em Corpo, Sangue, Alma e Divindade na hóstia consagrada. Esse mistério é muito superior à nossa capacidade, mas você crê, porque assim manda a Igreja. Claro que também temos a obrigação de buscar e pedir a Deus que nos ajude a entender cada vez melhor esse mistério, mas mesmo não entendendo completamente já cremos, pois é um dogma e como tal está apoiado na autoridade do próprio Deus. Ao crer nisso renunciamos ao nosso próprio entendimento.
                3- Se tua mãe te manda lavar a louça, você obedecerá, mesmo preferindo não fazê-lo e assim estará renunciando à sua própria vontade, pois estará fazendo isso para obedecer o mandamento divino de honrar pai e mãe.

            A disposição interior de fazer tudo para a glória de Deus e o ato de entregar a Ele a cada momento nossas ocupações também faz parte da renúncia. Que a nossa vontade seja que a vontade de Deus se realize é a essência da renúncia e a forma mais completa de praticá-la. Mas isso exige de nós uma decisão forte, um esforço contínuo, atos concretos de renúncia e muita oração implorando a graça de Deus.
            As verdades da religião podem sobrepujar nossa capacidade racional, mas nunca estarão em desacordo com a razão. Logo, a negação de si mesmo que praticamos para seguir Nosso Senhor, de modo algum nos colocará em dilemas morais, pois é a própria razão que, dando-se conta da nossa fraqueza, nos persuade a entregar-nos a Deus.
            A segunda parte do evangelho que gostaria de destacar é simplesmente a continuação da primeira. Diz o seguinte: “Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, salvá-la-á” (Marcos 8, 35).
            Toda a doutrina da Igreja e sua ação têm como fim último a salvação das almas. Seria estranho que uma de nossas obrigações fosse não querer salvar a própria vida. No referido versículo, portanto, é óbvio que a palavra “vida” é usada em dois sentidos diferentes. Para tentar explicitar o sentido desse versículo vou reescrevê-lo de um modo mais longo colocando a interpretação que consegui formular: “Porque o que quiser salvar sua vida mortal, apegando-se aos atrativos passageiros desse mundo e colocando neles sua esperança, perderá a Vida Eterna; mas o que perder sua vida carnal, no sentido de renunciar aos atrativos desse mundo, por amor a Jesus Cristo, salvará sua alma e alcançará a vida eterna.”
            Essa vida mortal e passageira que nos foi confiada não deve estar direcionada ao gozo carnal, mas à penitência, à oração, ao trabalho, ao serviço ao próximo. Existe o desfrute lícito dos bens desse mundo, mas isso não deve nos desviar do nosso fim principal, pelo contrário, deve sempre a este se ordenar. Erramos gravemente, portanto, quando a todo custo nos desviamos do jejum com medo de prejudicar a saúde, quando a sacrificamos consideravelmente mais para satisfazer um prazer; nunca fazemos uma vigília para não estarmos cansados no outro dia, mas perdemos o sono para estar bebendo até tarde com os amigos. Consideramos sempre o que nos é mais agradável, raramente nos sacrificamos nem nos mortificamos. Em suma, acabamos por não morrer a nós mesmos e por um amor desordenado (um amor de si contra si) buscamos salvar a própria vida, e que vida é essa que queremos salvar? A vida mortal. O fato é que, entre essas duas vidas: a mortal e a Eterna, só uma pode ser salva: a Eterna. A mortal perder-se-á por si mesma, pois está sujeita a ação do tempo. Logo, a escolha é: ou você perde as duas tentando inutilmente salvar a mortal; ou você ganha a Vida Eterna, sacrificando conscientemente a vida mortal, contando para isso com a graça de Deus.
            Esse ponto da vida espiritual que aqui estou tratando é contemplado nas principais obras católicas, e sempre é um ponto central. Gostaria de brevemente falar sobre algumas delas para ajudar o leitor a entender ainda melhor essa questão, enquanto ao escrever eu próprio tento por minha vez entendê-la:
            1- FILOTÉIA – SÃO FRANCISCO DE SALES – Essa obra é uma das mais extraordinárias que existem. Os conselhos são muito inspirados, sábios e de fácil entendimento. Animam-nos a praticar os preceitos religiosos, pois tudo ali é tratado de forma simples e amena. Há também várias meditações, orações e considerações que nos ensinam a rezar, a fazer penitência e a meditar.
            No prefácio, São Francisco de Sales escreve: “Nisto consiste, pois, a essência da devoção verdadeira, que suplico à majestade divina de conceder a mim e a todos os membros da Igreja, à qual quero submeter para sempre meus escritos, minhas ações, minhas palavras, minha vontade e meus pensamentos.” Aí está como deve falar um bom católico!
            2- A ALMA DE TODO APOSTOLADO – JEAN BAPTISTE CHAUTARD – Nessa obra, Chautard deixa claro que a alma de todo apostolado é a oração e a meditação, e que seria erro grave achar que qualquer obra possa dar frutos se não tiverem ligadas a uma forte vida espiritual de oração e meditação, pois é por essas duas práticas que nos tornamos íntimos de Deus, que é o único que nos pode conceder as graças necessárias para que nossos esforços apostólicos frutifiquem. Como disse Nosso Senhor: “Sem mim nada podeis fazer”. Chautard diz na décima primeira verdade – primeira parte – “Farei, durante os meus retiros, um sério exame de consciência para saber: se estou convicto da nulidade da minha ação, e da sua força, quando unida à ação de Jesus; se excluo, implacavelmente qualquer vaidade, qualquer autocontemplação, na minha vida de apóstolo; se me mantenho numa desconfiança absoluta de mim mesmo; e se peço a Deus que dê vida às minhas obras e me preserve do orgulho, primeiro e principal obstáculo para receber o seu auxílio.”
            3- IMITAÇÃO DE CRISTO – TOMÁS DE KEMPIS – Outra obra extraordinária que também aborda diversas vezes o tema da renúncia. Listo a seguir alguns dos principais ensinamentos que encontrei nesse clássico:
·         Melhor ser ignorante e virtuoso que instruído e orgulhoso;
·         Desprezar o mundo e suas pompas;
·         Conhecer a si mesmo e desprezar a si mesmo;
·         Ser humilde;
·         A graça do entendimento das coisas divinas vem de Deus e não da inteligência humana;
·         A importância do silêncio e do recolhimento;
·         A vida virtuosa traz sabedoria.
·         Deve-se procurar o aconselhamento de alguém mais sábio.
·         Renunciar à própria vontade.
·         A vida virtuosa traz paz.

No capítulo 8 do livro 3, podemos encontrar este lindo trecho: “Mas se me tiver por vil e me aniquilar, deixando toda a vã estima de mim mesmo, e me reduzir a pó, que sou na verdade, ser-me-á propícia a vossa graça, e a vossa luz há de vir em meu coração, e todo sentimento de amor próprio, por mínimo que seja, perder-se-á no abismo do meu nada e perecerá para sempre... perdi-me, amando-me desordenadamente; mas, buscando a vós unicamente, e amando com puro amor, a mim me achei e a vós também, e este amor me fez ainda mais aprofundar-me em meu nada.”
Podemos também encontrar o seguinte no capítulo 32 do livro 3: “ - Jesus: Filho, não podes gozar perfeita liberdade, enquanto não renunciares  inteiramente a ti mesmo.... deixa tudo e tudo acharás; renuncia à cobiça, e terás sossego. Pondera isso, e, quando o praticares, tudo entenderás.
O capítulo 37 do livro 3, por sua clareza e completa harmonia com o evangelho, merece ser citado na íntegra: “ - Jesus: Filho, deixa-te a ti, e acharás a mim. Despe tua vontade e teu amor próprio, e sempre tirarás lucro. Porque, logo que te entregares a mim sem reservas, se te acrescentará a graça.
 - A alma: Senhor, em que devo renunciar-me e quantas vezes?
 - Jesus: Sempre e a toda hora, tanto no muito como no pouco. Nada excetuo, mas quero te achar despojado de tudo. De outra sorte, como poderás ser meu e eu teu, se não estiveres, exterior e interiormente, desapegado de toda vontade própria? Quanto mais prontamente isso fizeres, tanto melhor te acharás, e quanto mais pleno e sincero for teu sacrifício, tanto mais me agradarás e maior lucro terás.
Alguns há que se entregam a mim, mas com alguma reserva, porque não tem plena confiança em Deus e por isso tratam de prover as próprias necessidades. Outros, a princípio, tudo oferecem, mas depois, combatidos pela tentação, voltam-se novamente às próprias comodidades, e eis porque quase não progridem nas virtudes. Estes nunca chegarão à verdadeira liberdade do coração puro, nem à graça de minha doce familiaridade, enquanto não renunciarem de todo a si mesmos, oferecendo-se em cotidiano sacrifício a Deus, sem o que não há nem pode haver união deliciosa comigo.
Muitas vezes te disse e agora te torno a dizer: deixa-te, renuncia a ti mesmo, e gozarás de grande paz interior. Dá tudo por tudo, não busques, não reclames coisa alguma, persevera, pura e simplesmente, em mim, e me possuirás. Terás livre o coração e as trevas não te poderão oprimir. A isto te aplica, isto pede, isto deseja: ser despojado de todo o amor-próprio, para que possas seguir nu a Jesus desnudado, morrer a ti mesmo e viver eternamente. Então se dissiparão todas as vãs imaginações, penosas perturbações e supérfluos cuidados. Logo, também, desaparecerá o temor demasiado, e morrerá o amor desordenado.”
Por fim cito ainda um trecho do capítulo 56 do livro 3: “Quanto mais saíres de ti mesmo, tanto mais poderá chegar-te a mim. Assim como o não desejar coisa alguma exterior produz paz interior, assim o desprendimento interior de si mesmo causa a união com Deus... Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mateus 19, 17). Se queres conhecer a verdade, crê em mim. Se queres ser perfeito vende tudo (Mateus 19, 21). Se queres ser meu discípulo, renuncia a ti mesmo. Se queres possuir a Vida bem aventurada, despreza a presente. Se queres ser exaltado no céu humilha-te na terra. Se queres reinar comigo, carrega comigo a cruz, porque só os servos da cruz acham o caminho da bem aventurança e da luz verdadeira.”
4- EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS – SANTO INÁCIO DE LOYOLA – Nesse livro Santo Inácio nos ensina um verdadeiro método para progredir na vida espiritual. Método esse baseado em diversos conselhos, meditações e exercícios espirituais. Logo antes de começar os exercícios da primeira semana, lê-se um pequeno texto intitulado “Princípio e Fundamento”, ali lê-se o seguinte: “O ser humano é criado para louvar, reverenciar e servir a Deus Nosso Senhor e, assim, salvar-se. As outras coisas sobre a face da terra são criadas para o ser humano para o ajudarem a atingir o fim para o qual é criado. Daí se segue que ele deve usar das coisas tanto quanto o ajudam para atingir o seu fim, e deve privar-se delas tanto quanto o impedem. Por isso é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é permitido à nossa livre vontade e não lhe é proibido. De tal maneira que, da nossa parte, não queiramos mais saúde que enfermidade, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida breve, e assim por diante em tudo o mais, desejando e escolhendo somente aquilo que mais nos conduz ao fim para o qual somos criados.”
5- TRATADO DA VERDADEIRA DEVOÇÃO À SANTÍSSIMA VIRGEM – SÃO LUIS MARIA GRIGNION DE MONTFORT – Quem ainda não tem esse livro, trate de providenciá-lo e colocar em prática o que ali está escrito. Consagrar-se à Nossa Senhora e viver essa consagração é o meio mais fácil, seguro e piedoso de progredir na vida espiritual. São Luis explica com maestria as razões teológicas e os fundamentos doutrinais para entregarmos todos os nossos méritos a Jesus por intermédio das mãos puríssimas de Nossa Senhora.
No capítulo II, artigo 3, São Luis nos ensina: “Para despojar-nos de nós mesmos, é preciso conhecer primeiramente e bem, pela luz do Espírito Santo, nosso fundo de maldade, nossa incapacidade para todo o bem, nossa fraqueza em todas as coisas, nossa inconstância em todo o tempo, nossa indignidade de toda graça e nossa iniqüidade em todo lugar...Em segundo lugar, para despojar-nos de nós mesmos, é preciso que todos os dias morramos para nós, isto é, importa renunciarmos às operações das faculdades da alma e dos sentidos do corpo, precisamos ver como se não víssemos, ouvir como se não ouvíssemos, servir-nos das coisas desse mundo como se não o fizéssemos... Se não morrermos a nós mesmos, e se as mais santas devoções não nos levarem a essa morte necessária e fecunda, não produziremos fruto que valha, nossas devoções serão inúteis, todas as nossas obras de justiça ficarão manchadas por nosso amor próprio e nossa própria vontade, e Deus abominará os maiores sacrifícios e as maiores ações que possamos fazer.”
Como se vê a renúncia de si mesmo é condição sine qua non para a prática da verdadeira religião (catolicismo), a isso no leva tanto o evangelho quanto o coro harmônico dos escritores espirituais. Obviamente também o catecismo nos leva a isso. De fato, não é possível obedecer aos mandamentos sem renunciar a si mesmo, pois o pecado original, ao tornar, de certa forma, nossa natureza em inimiga de Deus, tornou-nos, ao mesmo tempo, avessos ao cumprimento de tudo aquilo que é bom. Logo, para cumprir as exigências de Deus, somos obrigados a essa renúncia, e quando pecamos é simplesmente porque não quisemos renunciar a nós mesmos. Nossa natureza corrompida nos inclina sempre ao mal; quando, por um amor desordenado a nós mesmos, cedemos a ela, caímos no pecado. Além disso, temos outros dois inimigos: o mundo e o demônio, mas certamente a corte celestial que nos socorre é superior a tudo isso.
Todas as quedas narradas pela Bíblia são devidas a essa falta de renúncia: Lúcifer caiu por não renunciar, da mesma forma Adão e Eva; Caim, Judas e todos os demais pecadores da história se ressentem desse mal que é a recusa de renunciar a si mesmo. Por outro lado, todos os justos da história demonstram uma extraordinária disposição para renunciar: Abraão que renuncia a seu próprio filho, Noé que renuncia à sua honra, Nossa Senhora que diz “Sim” a Deus, Nosso Senhor que roga ao Pai que seja feita a vontade dEle.
O significado profundo dessa renúncia e todas as suas conseqüências não posso eu esclarecer por completo. Espero que esse pequeno trabalho possa ter ajudado aqueles que procuram sinceramente fazer a vontade de Deus. Para todos nós que estamos começando agora nossa caminhada espiritual, tenho certeza de que as práticas a seguir muito nos ajudarão:
1- Ler e meditar sobre as cinco obras que citei, sem esquecer o Evangelho. Todas elas tratam do assunto de modo magistral.
2- Fazer penitência: jejum, vigílias, abster-se de carne mais vezes do que manda a Igreja, deixar de comer alguma coisa de que se gosta, sacrificar algum lazer para poder se dedicar à oração e à meditação ou alguma outra obra de piedade. Além de praticar obras de misericórdia. Se ficarmos atentos o Espírito Santo nos inspirará no tipo de penitência e obras que devemos fazer.
3- Ser disciplinado nas orações. Rezar várias vezes por dia, sem esquecer o terço.
4- Resignar-se à vontade de Deus nos contratempos da vida, e entregar todas as vicissitudes a Deus como forma de penitência e reparação por nossos pecados.
5- Consagrar-se a Nossa Senhora pelo método de São Luis Maria Grignion de Montfort.

Esses passos simples serão um bom começo para atingirmos a perfeita renúncia que Deus nos pede. Imploremos a Ele a graça de atingirmos tão sublime estado, pois sem Ele nada podemos fazer. Ave Maria!