segunda-feira, 5 de março de 2012

OS DOIS EVANGELHOS


Alguns comunistas estão tão convencidos de que são a última esperança da humanidade, que não raro passam a desprezar de modo equivocado as outras pessoas que tentam fazer alguma coisa pelo bem comum. Começam por desprezar os próprios companheiros de ideologia, mas seu maior desprezo é pelos “idealistas”, “filantropos”, ou “cristãos”.
            A causa desse desprezo encontra-se na crença firmemente arraigada que os comunistas possuem de que sua ação é a única baseada num método eficaz de análise da realidade histórica. Embora essa cientificidade eficaz tenha falhado tantas vezes, em tantas revoluções, eles nunca conseguem recapitular, alegando sempre que faltaram as condições objetivas para a efetivação do comunismo idealizado por Marx. E assim poderão tentar seu projeto até o fim dos tempos, pois sempre que falharem poderão alegar que o mundo ainda não estava maduro para receber o comunismo, ou então que a vanguarda falhou, ou que o proletariado não reagiu adequadamente. Enquanto houverem pessoas revoltadas e suficientemente presunçosas, esse movimento continuará, porque está calcado numa ilusão que vai aos poucos se estabelecendo através dos estudos marxistas: essa ilusão leva os indivíduos a notarem os problemas sociais, mas atribuí-los não a si mesmos, mas a uma estrutura, que aos poucos ganha vida própria na mentalidade do revolucionário. Com o tempo essa ilusão se traduz em ódio e revolta, que o revolucionário confunde com ardor pela causa ou amor pela humanidade.
            Essa ilusão se trai na práxis revolucionária. As seguintes contradições podem ser encontradas entre o discurso marxista e sua práxis:
1- Os marxistas condenam com bravura e indignação o imperialismo americano, as mortes no Iraque, a pena de morte; ao mesmo tempo que dizem que a violência e a luta armada é uma necessidade, sem a qual o mundo não pode melhorar. É claro que se um país poderoso oprime um país pobre (não tenho a mínima ideia se esse é o caso ou não dos USA em relação a outros países) causando mortes, miséria e dor, devemos nos indignar porque isso merece nossa indignação, mas quem aceita a violência e até a promove como instrumento de mudança, não tem autoridade moral para criticar aqueles que dela se valem.
2- Defendem a emancipação da mulher através da luta pela legalização do aborto.
3- São contrários a qualquer opressão, mas não se dão conta de que oprimir, ou melhor, matar um ser humano no ventre de sua mãe é a opressão mais covarde, abjeta e insensível a que pode prestar-se essa nobre criatura criada por Deus, chamada homem.
            Na esperança de levar a luz aos comunistas, evocamos muitas vezes a pessoa de Jesus Cristo, sua vida, suas palavras e suas obras. Mas eles se acham os cristãos mais autênticos, os benfeitores mais eficazes. Chegam a afirmar que Jesus era revolucionário. Embora neguem a Deus, a vida eterna, a ressurreição, os milagres, mesmo assim acreditam que são os cristãos mais verdadeiros, pois o lado sobrenatural de Jesus não importa, o que importa de Jesus é a suposta mensagem de ruptura, revolta e mudança social, mensagem que é distorcida até tornar-se verdadeiramente o contrário da autêntica mensagem cristã.
            Imbuídos dessa mentalidade, a maioria dos comunistas praticamente não se importa em ajudar o indivíduo em sua unidade concreta, pois isso não é eficaz e não modifica as "estruturas de opressão". Visitar um doente num hospital?! Para quê? Isso não é revolucionário, é manutenção do status quo. Portanto, eles não apenas são indiferentes às obras de caridade, são contrários terminantemente, pois elas arrefecem o ímpeto revolucionário do povo. Dessa forma ajudam a humanidade através da militância (essa sim verdadeiramente bondosa e eficaz); através dos livros que escrevem (pelos quais “a teoria ganha força quando penetra nas massas”); através de discussões etc. A ironia se dá quando justamente os materialistas, que anseiam mudar e transformar o mundo real, são os que mais se afastam do sofrimento humano em sua concretude. Ou seja, na hora de tomar o poder, certamente quererão ação concreta (dos operários é claro, porque a vanguarda não pode morrer, caso contrário quem comandará esse povo desvairado?), mas na hora de ajudar o próximo, preferem ajudar do modo mais abstrato possível. Quem não ama o próximo em carne e osso na sua frente, poderá amar a humanidade? quem hoje não divide com o proletário seu pão, sua riqueza, dividirá a riqueza social? Quem hoje se nega a dar uma esmola, a visitar um hospital, a ensinar um pobre, será realmente aquele que depois de tomado o poder, fará justiça beneficiando os outros?
            Mas tudo isso é justificado pela noção de eficácia: dar esmolas não é eficaz, ensinar um único menino não é eficaz, visitar doentes não é eficaz. Como o objetivo não é o bem em si, mas a transformação, logo o único objetivo válido e funcional é a tomada de poder.
            Não posso imaginar um exemplo mais concreto de falso- profetismo que a teoria marxista, onde tendo-se por pretexto emancipar o homem, destrói-se o homem. Porque em última instância o marxismo é a negação mais ardilosa do cristianismo, e Cristo veio para que todos tenham vida. Aquilo que nega Cristo nos traz morte.
            Cristo deu sua vida por nós, deu o exemplo da bondade mais perfeita e prometeu que nos libertaria do jugo do pecado se a ele nos entregássemos. Fazendo o bem, nos abstendo do pecado, praticando a caridade e rezando, estaremos trabalhando para a obra de Deus e contribuindo para a elevação do homem. Por outro lado, fomentando a revolta, o ateísmo e a revolução, estaremos traindo Deus e os homens. Busquemos primeiro o reino de Deus e a sua justiça, certos de que as demais coisas nos serão acrescentadas e saibamos ouvir o chamado de João Batista: “arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.”

2 comentários:

  1. O walmor, muito bom texto... esclarecedor e emancipador!

    Continue escrevendo e nos orientando...

    Abraços!

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