quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A SANTIDADE ENSINADA POR UMA CRIANÇA DE OITO MESES



       

          O Hugo tem oito meses. Tenho contemplado-o bastante ultimamente. Sua beleza infantil, sua pureza e inocência têm prendido a minha atenção e me convidado a muitas reflexões. Certamente há muito o que aprender nessa contemplação.
            No mar de malícia em que nos encontramos, as crianças brilham fulgurantemente, a luz de sua pureza contrasta com as trevas da imundície que nos cerca. De tanto observar esse meu filho mais novo, acabei por constatar que ele poderia ser um oásis para lembrar-me de coisas elevadas. Como que diante de um milagre indestrutível encontrei-me e ao contemplar tal maravilha passei a desconfiar de que Deus quer eloquentemente ensinar-me algo.
            Não seria exagero meu afirmar que o Hugo (meu filho de oito meses) se encontra em estado de santidade: não possui pecados pessoais e foi liberto do pecado original pelo Batismo. Sua alma inocente encontra-se na mais bela amizade com Deus.[1]
            Essa idade que ele tem agora é particularmente especial, pois antes disso a criança quase não esboça reações e a partir dessa idade a pureza vai se perdendo aos poucos para dar lugar às imperfeições, que na maior parte das vezes não são culposas, mas mesmo assim parece que começam a macular a candura que até então nos encantava. É claro que esse processo ocorre muito lentamente, de modo que podemos ver as manifestações dessa pureza em crianças bem maiores e até mesmo em adultos (nesse caso muito raramente). Em todo caso, Deus parece nos reservar bem pouco tempo para contemplar essa extraordinária sublimidade, pois as crianças crescem muito rápido e infelizmente o pecado e as imperfeições vão destruindo essa esplêndida inocência que o evangelho nos ensina a admirar e buscar.
            O que atrai na criança não é apenas a beleza, não é apenas a inocência e a pureza, mas algo de especial que obviamente não sou capaz de dizer. Arrisco dizer (e se estiver errado desconsiderem e corrijam) que um adulto que não tivesse nunca cometido pecados não seria tão encantador e puro quanto uma criança, embora certamente teria mais méritos. Isso ocorreria porque mesmo não pecando, esse adulto teria desenvolvido as imperfeições causadas pelo pecado original, algo que à criança ainda não teria ocorrido por falta de tempo. Observando por esse ângulo somos levados a considerar o encanto de Nosso Senhor Jesus Cristo e de Sua Santíssima mãe que não possuem com o pecado nem o mais longínquo contato; podemos considerar também o encanto de São João Batista que foi santificado no ventre de sua mãe.
            A criança até determinado estágio não tem os meios para pecar, não tem vontade de pecar, não tem capacidade para pecar e não tem entendimento para pecar. A criança é completamente ignorante e sendo assim não pode pecar, pois a ignorância, quando não é culposa, exclui a responsabilidade pelo erro cometido.
            Cristo nos diz que para entrarmos no Reino dos Céus é preciso que nos tornemos como crianças. Permito-me dizer que ele disse isso em sentido alegórico, portanto devemos ser ignorantes como as crianças, mas não da mesma forma, pois elas são ignorantes devido à sua própria condição, coisa que não cabe aos adultos, que em geral têm a obrigação de aprender muitas coisas, sobretudo as referentes à salvação. Como então deve o adulto ser ignorante? Creio que seja não confiando na própria sabedoria, no próprio conhecimento, na própria inteligência, mas confiando primeiramente em Deus. Pedindo a inspiração do Espírito Santo, entregando a Deus todas as faculdades e rogando a Deus em humildade a cada passo que se dê.
            A criança encontra-se numa situação de extrema dependência. Ela não pode fazer quase nada sem o auxílio de alguém. Em geral o adulto não é dependente a esse ponto, pois exibe uma autonomia muito maior. Deve, no entanto, ser dependente como uma criança, para seguir o conselho de Jesus. Depender de Deus para tudo, recorrer a Deus em tudo, pedir a Deus auxílio em todas as necessidades e atribuir a Ele toda a glória.
            Os pequenos ao fugirem dos perigos vão em direção aos pais com uma confiança que é tocante. Esse é mais um dos aspectos que devemos imitar se quisermos obedecer ao que Jesus nos diz a respeito das crianças.
            Quando Nosso Senhor nos diz que só entraremos no Reino dos Céus se nos tornarmos como crianças, nos dá uma condição para a Salvação, mas também nos aponta como seremos no Paraíso, isto é, seremos puros como crianças, mesmo sendo adultos. Como tudo o que Deus criou quer nos dizer algo, ao contemplar meu filho creio ter aprendido vagamente como será um dos tantos milagres do Paraíso: ser um adulto pleno e ainda assim tão belo, encantador, puro e inocente quanto uma criança de oito meses.


[1] Se eu estiver dizendo algo que contrarie a Doutrina Católica desde já renuncio ao erro. Não apenas neste texto, mas em qualquer outro de minha autoria. E isso também se estende para qualquer coisa que eu disser ou pensar.

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