terça-feira, 17 de outubro de 2017

LIBERDADE DE EXPRESSÃO: ADUBO MALDITO


         A liberdade de expressão é um dogma da modernidade. Ele impõe que as ideias, pensamentos, teorias, manifestações artísticas, protestos, gestos podem ser expressos e propagados independentemente da sua correção moral e da sua veracidade. É o desprezo puro e simples das leis morais e da verdade; é a exaltação abjeta de uma falsa liberdade; é o desprezo ao Criador e a exaltação vergonhosa da criatura; é o desprezo ao dever e o amor desenfreado ao prazer; é falta de humildade e louvor do orgulho; falta de boa vontade; cegueira colossal.
            Esse dogma é utilizado para propagar todo tipo de perversão e, por fim, acaba por perseguir aquilo que é certo. Num primeiro momento parece permitir a manifestação de ideias boas e más; mas com o tempo, devido ao progresso do mal, que costuma crescer mais rápido, acaba por se revelar como uma terrível farsa: o belo, o verdadeiro, o justo, o puro passam a ser perseguidos e os seus contrários passam a ser exaltados como os únicos que possuem o direito de existir. O exemplo do Levi Fidelix prova isso claramente[1].
            Há um livro altamente recomendável para quem quiser se aprofundar neste assunto: “Do Liberalismo à Apostasia – A Tragédia Conciliar” escrito por Mons. Marcel Lefebvre, editora permanência. O capítulo XI trata da liberdade de imprensa e merece ser citado na íntegra:

CAPÍTULO XI – A LIBERDADE DE IMPRENSA

                                                                                                         Liberdade funesta e execrável,
                                                                                                     verdadeira opressão das massas.”
                                                                                                                                              Leão XIII

            Se o leitor continuar a ler os documentos papais, um após outro, verá que todos disseram o mesmo sobre as novas liberdades nascidas do liberalismo: a liberdade de consciência e de cultos, a liberdade de imprensa, a liberdade de ensino, são liberdades envenenadas, falsas liberdades: porque o erro é sempre mais fácil de difundir do que a verdade, o mal é mais fácil de ser propagado do que o bem. É mais fácil dizer às pessoas: “podem ter várias mulheres” do que dizer: “só podem ter uma durante toda suas vidas”; logo é mais fácil estabelecer o divórcio como um “contrapeso” ao casamento! Assim também, deixem indiferentemente se propagar na imprensa o certo e o errado e verão com certeza o errado ser favorecido às custas da verdade.
            Atualmente gostam de dizer que a verdade faz seu caminho somente com sua força intrínseca, e que para ela triunfar não necessita da proteção intempestiva e molesta do Estado e de suas leis. Se o estado favorece a verdade, grita-se logo à injustiça, como se a justiça consistisse em manter equilibrada a balança entre o verdadeiro e o falso, entre a virtude e o vício... Está errado! A primeira justiça é favorecer o acesso das inteligências à verdade e preservá-las do erro. É também a primeira caridade: “veritatem facientes in caritate”. Na caridade, façamos a verdade. O equilíbrio entre todas as opiniões, a tolerância de todos os comportamentos, o pluralismo moral ou religioso, são as características de uma sociedade em decomposição, que é a sociedade liberal procurada pela maçonaria. Ora, foi contra o estabelecimento de uma tal sociedade que os Papas que citamos reagiram sem cessar, afirmando o contrário, que o Estado, o Estado católico em primeiro lugar, não tem o direito de dar tais liberdades, como a liberdade religiosa, a liberdade de imprensa ou a liberdade de ensino.


A Liberdade de Imprensa

            Leão XIII lembra ao Estado seu dever de temperar com justiça, ou seja, de acordo com as exigências da verdade, a liberdade de imprensa:

“Continuemos agora essas considerações sobre a liberdade de exprimir pela palavra ou na imprensa tudo o que se quer. Sem dúvida, se esta liberdade não é temperada pela boa medida, se ela ultrapassa os limites e a medida, uma tal liberdade, evidentemente, não é um direito, pois o direito é uma faculdade moral. E como nós já dissemos e devemos sempre repetir, seria absurdo pensar que esta faculdade pertence naturalmente e sem distinção nem discernimento à verdade e à mentira, ao bem e ao mal. A verdade, o bem, pode-se propagá-los no Estado com uma liberdade prudente para que um maior número seja beneficiado; mas as doutrinas falsa, peste mortal para as inteligências, os vícios que corrompem os corações e os costumes, é justo que a autoridade pública os reprima com diligência, para impedir que o mal se estenda e corrompa a sociedade.

E as maldades das mentes licenciosas que redundam em opressão da multidão ignorante não devem ser menos punidas pela autoridade das leis[2] que qualquer atentado da violência cometido contra os fracos. E essa repressão é tanto mais necessária quanto mais indefesa é a grande maioria da população, impossibilitada de se defender contra esses artifícios do estilo ou as sutilidades da dialética, principalmente quando tudo isto excita as paixões. Dê a todos a licença ilimitada de fala e escrever e nada mais será sagrado e inviolável, nada será poupado, nem mesmo estas verdades primeiras, estes princípios naturais que devemos considerar como um nobre patrimônio comum a toda a humanidade. A verdade é assim invadida pelas trevas e nós assistimos, como tantas vezes, o fácil estabelecimento e a plena dominação dos erros os mais perniciosos e os mais diversos.” (Libertas Praestantissimum, Leão XIII)

            Nós já vimos como o Papa Pio IX, antes de Leão XIII, estigmatizou a liberdade de imprensa no Syllabus (proposição 79). Já Gregório XVI o fizera na encíclica “Mirari Vos”:

“Aqui tem lugar aquela péssima e nunca suficientemente execrada e detestada liberdade de imprensa que alguns homens ousam, com tanto barulho e insistência, pedir e espalhar. Ficamos horrorizados, Veneráveis Irmãos, ao contemplar com que monstruosas doutrinas, ou melhor, de que monstruosos erros nos vemos cercados. Erros espalhados ao longe e em toda parte, por imensa quantidade de livros e folhetos, pequenos em seus volumes mas enormes em sua malícia, de onde corre essa maldição que cobre a face da terra e nos faz chorar. E por desgraça há quem levado a tal descaramento, afirme que esta avalanche de erros, nascida da liberdade de imprensa, seja plenamente compensada pela publicação de alguns livros escritos para defender, no meio desta tempestade de perversidade, a verdade da religião.”[3]

            E aí aparece, desmascarado pelo Pontífice, o pseudo-princípio liberal da “compensação”, que pretende que se deva compensar a verdade pelo erro e vice-versa. Como veremos, esta idéia é o primeiro princípio daqueles que se chamam “católicos liberais”, que não suportam a afirmação pura e simples da verdade e exigem que ela seja contestada imediatamente por opiniões opostas; e reciprocamente julgam que não há nada a censurar na livre difusão dos erros, contanto que a verdade possa se fazer ouvir pelo menos um pouco! É a constante utopia dos liberais ditos católicos, que voltaremos a tratar adiante.

            A liberdade de expressão é a negação dos direitos de Deus e a promulgação de um pseudo direito. A mera possibilidade de se fazer algo não configura um direito. Por exemplo: é possível roubar, mas não há o direito de roubar; dessa forma podemos concluir que o erro não possui direitos. Sendo assim, esses “artistas” não possuem o direito de produzir essas excrescências que ousam chamar “arte”.
            Muitos se opuseram por ocasião da exposição “queermuseu”, bem como da “performance artística” do homem nu que teve a participação de crianças. Em muitos casos essa oposição foi insuficiente e baseada numa premissa equivocada. Acabaram dessa forma prestando tributo à liberdade de expressão que é justamente o princípio que gerou tudo isso. Não há como apagar o fogo com gasolina, é preciso negar o princípio se quisermos evitar as conseqüências. Não adianta continuar defendendo a liberdade de expressão e querer que os resultados sejam diversos.
             Disseram, por exemplo, que se fosse para adulto não haveria problemas, que o erro estava em envolver crianças. Não! O erro está nessa “arte” em si e não apenas no modo como foi exibida. Explico: aquelas “obras de arte” são perversas em si mesmas e simplesmente não deveriam existir. Quando são expostas ao público adulto o erro se agrava e quando são expostas ao público infantil se agrava ainda mais. Muitos acreditam que o erro está apenas na exposição ao público infantil, ou seja, tomaram um agravante do erro como se este fosse o próprio erro. É como se alguém tivesse roubado a um adulto e a uma criança e alguém viesse dizer: “roubar adulto tudo bem, mas roubar criança já é demais!”
            Mesmo que se diga que o adulto foi porque quis e blá, blá, blá, ainda assim está errado, pois é evidente que pode haver erros nas ações voluntárias. Repito: esse tipo de obra não deveria existir, quem as criou está errado; quem as prestigia está errado; as autoridades que as permitem estão erradas; as leis que por ventura as permitem estão erradas também. E não me venham mais dizer que o erro foi apenas a exposição ao público infantil, pois essa ousadia diabólica de expor para as crianças é uma conseqüência lógica da permissão que se deu ao longo do tempo a essas obras perversas. O mal é uma árvore que cresce muito rápido, não é possível apenas podar os seus galhos, é preciso cortá-la pela raiz. A liberdade de expressão é um dos adubos dessa árvore que agora dá os seus frutos: blasfêmia, incentivo à pedofilia, incentivo á zoofilia, incentivo ao homossexualismo. Aí então alguns apenas querem proibir que as crianças comam tais frutos, enquanto acham lícito permitir que os adultos deles se fartem. Não! É preciso atacar a raiz. Esses frutos matam, e matam crianças e adultos, e embora matar crianças seja mais grave, devemos lembrar que os adultos também possuem almas e são eles que educam as crianças, portanto quem está realmente preocupado com as crianças devem defender que tais exposições são absolutamente perversas e simplesmente não deveriam existir.
Observação: Para escrever este texto não me valho da “liberdade de expressão” em seu sentido moderno, mas da liberdade que a verdade possui. A verdade está acima de nós e se eu disse algo de errado, desde já renuncio, pois como já disse o erro não possui direitos.


[1] É amplamente conhecido que o então candidato à presidência foi condenado a pagar multa por ter dito, entre outras coisas consideradas “homofóbicas”, que “aparelho excretor não reproduz”.
[2] O negrito está no próprio livro.
[3] Coloquei sublinhado para diferenciar o texto das encíclicas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário