segunda-feira, 2 de abril de 2018

CRÔNICA DEPOIS DE LER CORÇÃO


             Agora é de madrugada, eu estava lendo Corção. Terei agora a ousadia de tentar imitá-lo. Imitá-lo em escrever, em expressar reflexões que tenho em minha alma. Mas não poderei imitá-lo em seu nobre gênio, em seu talento, em sua experiência. Todavia não pode ele escrever por mim, devo fazê-lo por conta própria, certo de que ele perdoaria o ter inspirado alguém tão desprovido.
            Gustavo Corção voltou para a casa suprema por volta dos quarenta, isto é, converteu-se ao catolicismo. Soube muito bem, portanto, o que é o desterro. E talvez exatamente por isso fale tanto sobre casa, a boca fala (ou a pena escreve) do que está cheio o coração, e sou levado a crer que o coração do Corção (não foi intencional esse trocadilho) estava cheio de aspiração pelo Paraíso. Como se diz na Tradição Católica: “Casa do Pai”; “Morada dos eleitos” etc. O filho pródigo entra em si e depois retorna para entrar novamente na casa do Pai; Deus diz aos eleitos: “entra no gozo do teu Senhor”. O inferno, pelo contrário, é uma expulsão para as trevas exteriores; Adão e Eva foram expulsos, isto é, saíram. A oração “Salve Rainha” refere-se a esta vida como desterro. Este mundo nunca poderá ser a Casa, mas quanto mais as Leis de Deus forem respeitadas mais poderá nos oferecer constantes lembranças dessa morada eterna; e assim quanto mais o mundo se aproxima de um lar, mais nos faz anelar pelo Paraíso; e quanto mais se compraz no desterro mais se aproxima das trevas exteriores.
            Permito-me gabar-me de ser como ele, tão afeito a lembranças, tão contemplativo nas pequenas coisas e tão zeloso das grandes coisas que se escondem nessas miudezas que são guardadas na memória ou em objetos, intencionalmente ou por acidente. Permito-me unir-me a  ele no sentimento de voltar para casa e encontrar sempre o mesmo portão que cumpre o papel da imobilidade que faz lembrar o eterno. Ele fala de voltar para casa, de estar em casa; ele relembra sua casa de infância; ele fala do caminho para a casa. Eu também sinto tudo isso em minha alma estreita; sinto tudo isso quando viro as costas para o mundo cruel e adentro meu lar portão adentro. Tirando o capacete a que me obriga meu cavalo de ferro, sinto no coração, na alma e quase a me sair pela boca uma epopéia resumida, contida e retumbante e seus versos me dizem que estou onde devo. Vejo minha esposa e os pés dos meus filhos num vaguear aleatório pelo chão e posso adivinhar-lhes o sorriso, prever o abraço e descansar.
            Gustavo Corção é um gigante. Lê-lo é conversar com um amigo ilustre e alargar o que em minha alma pequena há de semelhante à sua, magnânima.

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